Osias Wurman
Jornalista
Direto de Paris |
PARIS-A semana foi rica em eventos históricos que, observados da principal capital do mundo europeu, tomam dimensão mais dramática e imaginativa.
O 14 de julho, que marca o aniversário da queda da Bastilha, durante Revolução Francesa de 1789, proporcionou um show de relações publicas e políticas, cujo principal ator foi o presidente francês Nicolas Sarkosi.
No palanque oficial do evento, lideres mundiais, com destaque para Ehud Olmert de Israel e Bashar Assad da Síria. Muito cortejado foi o Emir do Qatar, que acaba de adquirir dezenas de aeronaves da européia Airbus, em detrimento da concorrente americana Boeing.
Na França de Sarkosi, o clima é de “business as usual” (negócios como habitual), com total prioridade para a venda de reatores nucleares aos clientes do O. Médio.
A França ocupa a presidência da Comunidade Européia e tem participado, de forma discreta, na tentativa de dialogo entre Israel e a Síria.
Mas ainda não foram desta vez que os resultados se fizeram presentes.
A TROCA DE ASSASSINOS POR CADAVERES
A imprensa européia reagiu em consonância com o sentimento mundial que recebeu mal a iniciativa de troca de que participaram Israel e o Hezbollah.
Ressaltam os principais analistas que foi legitimada a negociação entre um país soberano, membro da ONU, com um movimento terrorista fundamentalista, proporcionando a escalada política e militar do terror em todo mundo.
Esta iniciativa do governo Olmert será julgada pela Historia, em todos os aspectos de humilhação, indignidade, erro estratégico e perigosos precedentes.
A humilhação de libertar 5 assassinos, com destaque para Samir Kundar, condenado a mais de 500 anos de prisão por crime hediondo, como assassino de um pai de família diante de sua filha de 4 anos, para em seguida dilacerar a cabeça da criança contra uma pedra, usando a base de seu rifle.
Entregar 5 assassinos em troca de 2 caixões com os restos mortais de reservistas militares, foi uma das maiores humilhações que o povo de Israel vivenciou em seus 60 anos de independência.
A indignidade da liderança do Hezbollah, com destaque para o sheik Nasrallah, que montou uma “festa para ídolos”, celebrando a volta dos assassinos antes mesmo do sepultamento dos soldados israelenses, foi criticada até em países árabes pro-ocidente. Uma festa macabra que consagrou o assassinato de israelenses como ato de coragem e bravura.
Nasrallah aproveitou para avançar na opinião das massas árabes fanatizadas, dizendo que o tempo de derrotas tinha passado.
Na Europa, a “festa de Kundar” foi exibida pela TV Al-Jaazerah durante horas seguidas em transmissão direta, desde a chegada até o show de ódio perante a multidão concentrada nas ruas de Beirute.
Neste final de semana, foi anunciado em Gaza que o Hamas vai emitir passaporte diplomático para Kundar, sob alegação de tratar-se de “grande herói da causa palestina”.
O grande erro estratégico de Israel, segundo analistas europeus, foi negociar a troca de corpos de soldados mortos dentro de território israelense, em tempo de paz, credenciando os movimentos terroristas a novas investidas contra civis e militares, incluindo seqüestros em Israel.
Também optar por receber restos mortais antes de liberar o terceiro seqüestrado em 2006, o soldado Shalit, ainda vivo, poderá ter trágicas conseqüências para o futuro do detido.
O perigoso precedente criado é aceitar devolver criminosos vivos em troca de mortos, o que poderá estimular o assassinato de futuros reféns capturados com vida.
Altamente preocupante foi a declaração neste sábado, feita por Haniyeh, líder do Hamas em Gaza, de que a vitoria do Hezbollah sobre Israel teria pavimentado o caminho para o endurecimento das exigências do Hamas, no caso de Shalit, possibilitando o pedido de liberdade para milhares de palestinos presos. Haniyeh deixou claro que não terá pressa em negociar a libertação do soldado israelense.
Vale lembrar que o jovem piloto Ron Arad, abatido nos céus do Líbano há 22 anos e entregue ao Hezbollah por seus captores, tem paradeiro desconhecido até hoje.
Também os restos mortais do espião israelense Eli Cohen, enforcado há 40 anos em praça publica de Damasco, capital da Síria, não foram entregues a sua família.
APROXIMAÇÃO EUA E IRÃ
Apesar de todos os pedidos de moderação feitos pela Comunidade Econômica Européia ao Irã, o governo de Ahmadinejad anunciou, neste domingo, que não dará qualquer resposta sobre a suspensão da produção nuclear por seu país, nas duas próximas semanas.
A imprensa americana prevê um ataque israelense no prazo máximo de 6 meses, quando termina o governo de Bush nos EUA.
Para tentar uma ultima cartada contra uma indesejável guerra Israel x Irã, o governo americano reabrirá uma representação diplomática em Teerã.
Os tradicionais aliados americanos, Egito e Arábia saudita, manifestaram apreensão com a noticia, pois são inimigos dos xiitas que governam o Irã.
Para entender o interesse americano em conversar, é importante lembrar que com 4% da população mundial, os EUA consomem 25% do petróleo produzido, sendo que 70% de suas importações são gastas com transporte.
Em 1973 os EUA importavam menos de 25% do petróleo consumido. Durante a Guerra do Iraque, em 1991, a dependência subiu para 40%. Hoje é de 70%.
Fica a dúvida cruel sobre a existência de uma eventual pressão americana ao combalido governo de Ehud Olmert, para que fizesse a troca de prisioneiros com o Hezbollah, abrindo as portas para entrada dos EUA no Irã, padrinho e financiador dos terroristas xiitas sediados no Líbano, e um dos maiores exportadores de petróleo do mundo.
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